Terça-feira, Maio 02, 2006
Requiem for a Dream
| E pronto. Como tudo o que respira, também este blogue tem um fim. "Mesmo eu de mim próprio me abandono". Neste caso, é mais uma mudança de pele. A cobra deixa a velha pele aqui, entregue às ruínas virtuais. Quem sabe se não nascerão teias(que palavra apropriada!) de aranha no canto direito do ecrã sempre que um link aqui vier parar. O extintor morre hoje, levando consigo memórias de pessoas gastas pelo passar dos dias. Um amanhã recomenda-se. Esse amanhã tem um nome: www.umhomemnaochora.blogspot.com. |
suavesemfiltro@hotmail.com
Terça-feira, Março 21, 2006
Manifesto-Poema
Cuarta Declaración de la Selva Lacandona
Comité Clandestino Revolucionario Indígena-Comandancia General delEjército Zapatista de Liberación Nacional. |
Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006

Gostamos todos muito de números redondos. Cinquenta, cem, duzentos, duzentos e cinquenta. Com a desculpa dos duzentos e cinquenta anos sobre o nascimento de Mozart, de repente, e sem aviso prévio, lá chegaram os concertos, as comemorações, as homenagens, até – imagine-se! – anúncios na televisão com a cara de Wolfgang em cartão, anunciando a «obra resumida» para o telespectador comprar, sem se chatear muito, que há óperas de 18 horas, e não há tempo para as ouvir. |
Sexta-feira, Janeiro 27, 2006
Terça-feira, Janeiro 10, 2006
Brigas ... e Depois?
" Eram meras questões de minutos. E o encontro dos namorados mais parecia um duelo de ciúmes.
— Você chega sempre atrasado.
— É, sei. E ontem, quem é que ficou aqui esperando, que nem um pateta?
— Ah, eu só atrasei dois minutos. Hoje você atrasou dez.
— Você é que chegou adiantada. Mas deixa que qualquer desses dias eu descubro o que você tanto faz, que nunca chega na hora certa.
E as discussões se sucediam, sem pé nem cabeça. Mas ciúmes são cegos como o próprio amor. São sentimentos mesquinhos, minuciosos, não esquecem a insignificância dos mínimos segundos. As batidas do coração jamais deveriam se escravizar aos tiquetaques desencontrados de dois relógios diferentes.
A verdade, porém, é que eram ambos loucos, um pelo outro, e seus corações acabavam por se entender, num ritmo comum de compreensão. E as hostilidades descansavam invariavelmente em beijinhos e mil perdões.
— Desculpe, viu, amor?
— Que nada, meu bem, a culpa foi toda minha.
— Não, eu é que fiquei nervosa.
— Deixa disso, eu banquei o bruto.
Por pouco não voltavam a discutir.
Assim correram muitos meses e muitas, muitas brigas, e os dois não chegavam a um acordo. Mas a vida tem dessas coisas. Quando se dá conta, a felicidade já é irremediavelmente retrato na parede, cartinha na gaveta, passando.
Alguns anos mais tarde, ela se casava com um rapaz bonito, tipo galã da Metro. Viveram em harmonia, sem brigas, sem discussões, talvez por falta de imaginação do atlético marido.
Por outro lado, o antigo namorado da adolescência não tardou a se apaixonar pelo lindo dote de uma mocinha que era um tesouro, filha de próspero industrial. Embora se tratasse de uma menina meio café-com-leite, sua herança lhe dava um quê de exótico. Alimentava por ela uma intensa, excêntrica paixão, enquanto que o bonachão rodava com seu Rolls-Royce, jogava em Monte Carlo e repousava em seu iate transatlântico. E numa atitude de misericórdia, suportava, geralmente, como um senhor onipotente, os carinhos milionários da esposa.
Muito tempo depois, porém, por um desses acasos que só o destino sabe explicar, os dois antigos namorados se encontravam nas areias de Copacabana, que é a praia onde todos vão. Já não eram os mesmos. Ele parecia carregar os milhões matrimoniais na respeitável barriga. Ela continuava encantadora, mas apenas na medida que possa encantar uma mulher de cinqüenta anos. Conversaram pouco, o silêncio disse mais. E voltaram a se encontrar, com mais freqüência e menos acaso. Já eram, no entanto, velhos demais para as inflamadas e inúteis discussões dos dezessete anos. Caminhavam calmamente pela areia molhada, mão na mão, por mais ridículo que possa parecer para a sua idade. Caminhavam sem rumo, sem tempo, sem horizonte. E quando se voltavam, sentiam a nostalgia da vida perdida em poucos minutos. "
Chico Buarque
Santa Cruz, número 3 - 05/63
Sempre gostei da descomplexada atitude dos escritores que escrevem sobre futebol. Quando leio algum texto, crónica futebolística de um deles, delicio-me com a personalidade que revelam e distanciamento para uma certa «elite» que defende, no mínimo, a extinção do futebol. " Sou veterano em Copas. Posso dizer que assisti no Pacaembu a um Brasil e Suíça pelo Mundial de 50, embora mal me lembre do jogo. Na verdade, só me lembro do uniforme dos suíços, a camisa vermelha com a cruz branca no peito, e quando eles entraram em campo pensei que fossem os salva-vidas.Talvez eu fizesse pouco da partida por causa do Pacaembu, que já estava enjoado de ver aos 6 anos de idade. E a vedete daquele Mundial não era Zizinho ou Ademir, mas o Maracanã recém-concluído, o maior estádio do mundo. Fora o Rio Amazonas, era a primeira coisa maior do mundo que faziam no Brasil, e a molecada enchia a boca para falar "Maracanã". De modo que a verdadeira Copa, para quem morava em São Paulo, chegava pelas ondas da Rádio Panamericana. Mais que o locutor, era o eco do Maracanã quem narrava o jogo. O estádio fazia "óóóóó", e era jogada de efeito. Fazia "úúúúú", bola raspando a trave. Fazia "hhhhhhhhhhhhhhh", Brasil de novo no ataque. Gol, e o Maracanã explodia, e a gente cantava as Touradas de Madri pulando na cama. No dia em que perdemos a taça para o Uruguai, claro que desliguei o rádio e taquei a culpa no Maracanã.Eu tinha razão. Batendo o recorde mundial de público, e portanto cheio de si, o Maracanã não via motivo para se preocupar com a seleção brasileira. A seleção, por sua vez, qualquer um sabe que estava nas mãos do Maracanã. E quando os jogadores mais precisaram do Maracanã, o Maracanã emudeceu. Quer dizer, a estádio de futebol não se pode dar confiança, lição que calou fundo em nossos atletas a partir de 50. Anos a fio, se eram recebidos com fanfarra e foguetório, fechavam a cara. Alinhavam-se para as fotos, cinco agachados e sete em pé, contando o massagista gordo, mas dava para notar que posavam de má vontade, olhando cada qual para um lado, e todos para lugar nenhum. Bola rolando, seguiam alheios à torcida, que se esgoelava, e quanto mais alheios seguiam, mais se esgoelava a torcida. A turba fazia "óóó", "úúú", "hhhhhhhh", e nossos heróis viravam as costas. Na hora do gol, aí sim, comemoravam. Mas comemoravam entre si, com efusão, com estardalhaço, com pirâmides humanas, com mãos nas bundas, que era mesmo para tripudiar sobre o adversário. E o grande adversário, evidentemente, era o estádio de futebol.Com o tempo veio uma espécie de anistia, prescreveu a culpa do Maracanã, e as novas gerações não guardavam ressentimentos. Quebrou-se o gelo, ou aquilo que em teatro se chama a quarta parede, separando atores de platéia. A parede de vidro, suspeito agora que foi o Pelé quem a espatifou a socos, no gesto que aos nossos olhos desentendidos parecia solto no ar. E a impulsão com que Pelé celebrava o gol chegava a superar aquela, já extraordinária, com que subira para cabecear. Era como se, na celebração do gol, o homem saltasse de dentro do atleta. Não só com a alegria, mas sobretudo com o orgulho que fez falta a Garrincha, Pelé impunha-se ao estádio, antes mesmo que o estádio o aclamasse. Ou coroava a si próprio, como Napoleão ao deixar o Pala de mãos abanando. O último centroavante introvertido que vi jogar chamava-se Oxímoro. Jogava no Bonsucesso e retirou-se com a chegada da televisão, para quem o artista importa mais que a sua arte. Hoje, num espetáculo que prescinde da bola, muitos artilheiros já excedem Pelé, pois até gol de pênalti festejam com saltos mortais. E correm para as arquibancadas, dançam para as arquibancadas, trepam no alambrado e querem abraçar o público, ou se imolar por ele. Consciente de seu papel, a platéia em peso também não tarda a se levantar, levando os braços ao céu numa formidável onda, ou ola. E durante aquele minuto em que as câmeras dão a volta completa do estádio, fica evidente que os povos são fraternos, que a humanidade é generosa e tudo mais. Ou nos enganamos redondamente, e é o jogo lá embaixo que está um tédio.A seleção brasileira conta nesta Copa com o estímulo de sua imensa torcida e o crédito dos expertos internacionais, apesar de tudo. Mesmo entre os donos da casa, deu numa pesquisa que ela tem 80% das simpatias, e não é sempre que se encontra um francês 80% simpático. Pela qualidade de seu elenco, é possível que o Brasil chegue à final no Stade de France recém-concluído, o mais elegante coliseu do mundo. Ostentando-se em tarde de gala para um bilhão de telespectadores, o estádio estará inchado. Mas nem assim há de inibir os nossos craques. Não que eles recordem a lição do Maraca, ou tenham mais arte que Zizinho e Ademir. Mas porque agora, sem dúvida, são todos mais artistas." |
O Globo/Estado - 07/06/98 PARIS
É permitido sonhar!
Acabada a primeira volta do Campeonato, é chegada a hora de um balanço mais ou menos neutral, mais ou menos certeiro, mais ou menos isento do que é, para onde caminha, que possibilidades tem, esta equipa do Benfica. Se pode haver dúvidas quanto ao plantel mais forte da Liga, no que respeita ao espírito, poucas dúvidas haverá. O plantel encarnado, composto por um núcleo duro com alguns anos de clube (finalmente!!!), incute em quem chega o mesmo princípio, ou princípios: solidariedade, trabalho, espírito de grupo, ambição, vitória. Camacho começou-os, Trapattoni fê-los crescer e provou-os com o sabor máximo do título nacional e Koeman agradece a construção e aproveita-a da melhor forma: continuidade. Pelo meio, e como catapulta espiritual, o malogrado ex-jogador do Benfica, Miklos Feher, funciona como a personificação de todos esses princípios. No futebol há sempre uma variante mística e outra surreal e irónica. Feher consegue agregá-las. Tornou-se uma figura eterna no Benfica, sendo sempre relembrado pelos jogadores, no famoso grito antes e depois do jogo; surreal e irónica por essa preponderância junto do coração dos jogadores e adeptos advir não dos feitos como jogador, mas de facto de ter morrido tragicamente em campo, minutos antes de uma partida ser concluída. Não tenho dúvidas de que Feher é peça importante naquilo que o Benfica vive hoje como vencedor desportivo e clube cada vez mais em ascensão. No futebol como na vida, há coisas simplesmente acima da nossa compreensão. |
Terça-feira, Dezembro 13, 2005
Quinta-feira, Outubro 06, 2005
Iberia
Do lado de cá, do país à esquerda, gerou-se a balbúrdia: impensável. Os do país pequenino lembravam-se ainda das traições a que foram sujeitos não havia 500 anos, e, com medo de ter em risco a mui proclamada INDEPENDÊNCIA, escreveram todos muito em jornais, e falaram em rádios, vieram comentadores de todo o país, indignadíssimos, vociferando contra os ventos e casamentos que vinham da direita que – já se sabia – nunca bons.
Os castelhanos, surdos e pouco impressionáveis, lá compraram o grupo empresarial português, sem que os intelectuais do luso burgo pudessem fazer alguma coisa.
Às questões levantadas por jornalistas, limitavam-se a dizer: Também nós temos italianos à ilharga, e nem por isso somos menos castelhanos. A tele5 é de Berlusconi; o jornal ABC é maioritariamente do grupo do jornal Corriere della Sera, e não deixámos de comer tortilla.
Vendo respondidas estas questões, os lusos iniciaram o que se poderá chamar de iniciação ao modelo espanhol de comunicação. Compreenderam que a sua identidade não estava em causa. Receberam os hermanos com abraços, pancadinhas nas costas, e muito Porto a regar as bocas empresárias em mesas de discussão. Acharam até – imagine-se – que o jornalismo espanhol teria muito a ensinar ao português e emendaram a mão, chamando aos filhos Pepe, Paço, Florentín, Diego, Conchita, Dolores, Martín, e por aí adiante. Nas casas portuguesas, os filhos gritavam da sala para a cozinha coisas como: «Mama, quiero una ensaladilla rusa!» , «Dame un pincho de pulpo» ou «Si no me traes un bocadillo de queso y jamón, passo a llamarme outra vez Adérito».
Adérito vivia por detrás dos montes. Levantava-se ainda de noite para levar os animais a pastar. Passava os dias em pensamentos ululantes, enquanto acompanhava com o olhar uma ovelha que se desviava do rebanho, imediatamente reencaminhada pelo cão Piloto, amigo inseparável dos dias infinitos entre as montanhas a perder de vista. Adérito nunca vira televisão. Um dia, chegaram os jornalistas. Que vinham fazer reportagem, diziam. Aos pais perguntaram se podiam levar o «pobre rapaz» à cidade. «Mostrar-lhe a civilização, a modernidade». Adérito viu prédios grandes, e muita gente correndo com pastas na mão. Viu carros entre carros estamparem-se, uns nos outros, enchendo de fumo o seu «pobre nariz». Quando chegou a casa, a mãe perguntou-lhe: «Então, filho, gostaste?», respondendo Adérito, fria e petulantemente: «Hablame en castellano, mujer. Así no te comprendo!»

