Terça-feira, Maio 02, 2006

Requiem for a Dream 

E pronto. Como tudo o que respira, também este blogue tem um fim. "Mesmo eu de mim próprio me abandono". Neste caso, é mais uma mudança de pele. A cobra deixa a velha pele aqui, entregue às ruínas virtuais. Quem sabe se não nascerão teias(que palavra apropriada!) de aranha no canto direito do ecrã sempre que um link aqui vier parar. O extintor morre hoje, levando consigo memórias de pessoas gastas pelo passar dos dias. Um amanhã recomenda-se. Esse amanhã tem um nome: www.umhomemnaochora.blogspot.com.
suavesemfiltro@hotmail.com

Terça-feira, Março 21, 2006

Manifesto-Poema 

Cuarta Declaración de la Selva Lacandona


Nosotros nacimos de la noche. En ella vivimos. Moriremos en ella. Pero la luz será mañana para los más, para todos aquellos que hoy lloran la noche, para quienes se niega el día, para quienes es regalo la muerte, para quienes está prohibida la vida.
Para todos la luz. Para todos todo. Para nosotros el dolor y la angustia, para nosotros la alegre rebeldía, para nosotros el futuro negado, para nosotros la dignidad insurrecta. Para nosotros nada.

Nuestra lucha es por hacernos escuchar, y el mal gobierno grita soberbia y tapa con cañones sus oídos.
Nuestra lucha es por un trabajo justo y digno, y el mal gobierno compra y vende cuerpos y vergenzas.
Nuestra lucha es por la vida, y el mal gobierno oferta muerte como futuro.
Nuestra lucha es por el respeto a nuestro derecho a gobernar y gobernarnos, y el mal gobierno impone a los más la ley de los menos.
Nuestra lucha es por la libertad para el pensamiento y el caminar, y el mal gobierno pone cárceles y tumbas.
Nuestra lucha es por la justicia, y el mal gobierno se llena de criminales y asesinos.
Nuestra lucha es por la paz, y el mal gobierno anuncia guerra y destrucción.
TECHO, TIERRA, TRABAJO, PAN, SALUD, EDUCACIÓN, INDEPENDENCIA, DEMOCRACIA, LIBERTAD, JUSTICIA Y PAZ.
Estas fueron nuestras banderas en la madrugada de 1994. Estas fueron nuestras demandas en la larga noche de los 500 años.
Estas son, HOY, nuestras exigencias.

Comité Clandestino Revolucionario Indígena-Comandancia General delEjército Zapatista de Liberación Nacional.



Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006


Gostamos todos muito de números redondos. Cinquenta, cem, duzentos, duzentos e cinquenta. Com a desculpa dos duzentos e cinquenta anos sobre o nascimento de Mozart, de repente, e sem aviso prévio, lá chegaram os concertos, as comemorações, as homenagens, até – imagine-se! – anúncios na televisão com a cara de Wolfgang em cartão, anunciando a «obra resumida» para o telespectador comprar, sem se chatear muito, que há óperas de 18 horas, e não há tempo para as ouvir.
Com todo este escarcéu em redor de Mozart, decidi rever o filme que, de longe, mais emoções me trouxe e mais prazer me deu como peça de simplicidade, de inteligência e beleza – Amadeus, de Milos Forman.
Ao longo da vida, o filme acompanhou-me. Comecei por vê-lo por partes, apenas por achar graça ao riso genial ecoando por aquelas salas enormes do palácio do Imperador José II, irmão de Maria Antonieta. Aquele riso, aquela cara, o despudor do talento, ali, para quem quisesse ver, a afronta ainda que subtil ao nosso «irmão» António Salieri. Chamo-lhe irmão, por ser ele a personificação dos medíocres («eu vos absolvo, medíocres do mundo»), dos medíocres que somos nós, em relação ao divino – Mozart e a sua música.

No princípio, foi a comédia do filme. Com 10, 11 anos queria porque queria ver e rever aquela entrada triunfal no palácio, aquele riso, o gozo incontido na cara de Salieri, a peça musical decorada enquanto percorria os corredores para depois a tocar sem hesitações, entrando mesmo em variações da própria peça, por enfado, por génio. Kapellmeister Bonno rindo, discreto, em subserviência e loucura.

Aos 13, 14 vi-o sinceramente. Absorvi-o. Todo. E fiquei maravilhado. Comecei por descobrir o enredo, percebi as primeiras ironias, os pequenos tempos entre falas, as fissuras por entre o argumento. Aquilo que não estava dito, mas adivinhado. Desde aí, vejo interminavelmente as personagens, descubro-as revisão após revisão, conheço-as, oiço-as, revejo-me nelas. Salieri como protagonista. Salieri sendo nós.
A perspectiva com a qual Milos Forman decide confrontar-nos é notável. Desde logo, a dicotomia eterno/finito. Ao piano, Salieri procura, no padre atento, o reconhecimento do seu trabalho. Confrontado com duas, três músicas do compositor italiano, o pároco desculpa-se por não reconhecer nas melodias qualquer familiaridade com o que havia estudado, em Viena. Até que…
… já desacreditando do seu ouvido, irrompe pelas mãos de Salieri uma melodia conhecida. Estamos na primeira presença de Mozart em todo o filme, ainda que indirectamente. O padre satisfeito por poder agradar ao compositor, segue a melodia, cantarolando. « Não sabia que tinha escrito essa música. É maravilhosa». « E não escrevi », diz Salieri, « that was … Mozart». Um pequeno diálogo, e a nossa condição de medíocres exposta ao mundo. De aqui em diante, estamos definidos. Seremos os olhos, a alma, o coração de Salieri, observando, impotentes, o voar de ave louca de Mozart. A nossa mediocridade chegou para nos resignar. Entramos no filme, e sem que notemos, a contemplação do divino enche-nos de satisfação contida. Podemos ver, mas não tocar. Podemos penetrar periodicamente na possibilidade do génio, mas não podemos ser o génio. O nosso destino está traçado. Sem génio, resta-nos, laicos de talento, cheirar Deus.
O que nos é proposto, através de Salieri, é uma viagem sem fim ao longo da vida de Mozart. Uma visão diferente, pelos olhos do compositor que, na época, granjeava bem mais aplausos e sofria de maior reputação no meio musical que Mozart. Um homem tremendamente fustigado por não lhe ter sido dada a possibilidade do divino, entregue a uma luta sem tréguas contra Deus, e, simultaneamente, um homem absurdamente apaixonado pela música de Mozart. Desse dilema entre a admiração e a inveja, nasce a história. A dos medíocres. Que seriam bem mais que medíocres, se a suprema vontade divina não trouxesse ao nosso encontro esses outros, por vezes desprezíveis figuras, que, tocadas pela mão do eterno, enchem de «som e fúria» o coração dos mortais.



Sexta-feira, Janeiro 27, 2006


Wolfgang Amadeus Mozart (1756-2006)


Terça-feira, Janeiro 10, 2006

Brigas ... e Depois? 


" Eram meras questões de minutos. E o encontro dos namorados mais parecia um duelo de ciúmes.
— Você chega sempre atrasado.
— É, sei. E ontem, quem é que ficou aqui esperando, que nem um pateta?
— Ah, eu só atrasei dois minutos. Hoje você atrasou dez.
— Você é que chegou adiantada. Mas deixa que qualquer desses dias eu descubro o que você tanto faz, que nunca chega na hora certa.
E as discussões se sucediam, sem pé nem cabeça. Mas ciúmes são cegos como o próprio amor. São sentimentos mesquinhos, minuciosos, não esquecem a insignificância dos mínimos segundos. As batidas do coração jamais deveriam se escravizar aos tiquetaques desencontrados de dois relógios diferentes.
A verdade, porém, é que eram ambos loucos, um pelo outro, e seus corações acabavam por se entender, num ritmo comum de compreensão. E as hostilidades descansavam invariavelmente em beijinhos e mil perdões.
— Desculpe, viu, amor?
— Que nada, meu bem, a culpa foi toda minha.
— Não, eu é que fiquei nervosa.
— Deixa disso, eu banquei o bruto.
Por pouco não voltavam a discutir.
Assim correram muitos meses e muitas, muitas brigas, e os dois não chegavam a um acordo. Mas a vida tem dessas coisas. Quando se dá conta, a felicidade já é irremediavelmente retrato na parede, cartinha na gaveta, passando.
Alguns anos mais tarde, ela se casava com um rapaz bonito, tipo galã da Metro. Viveram em harmonia, sem brigas, sem discussões, talvez por falta de imaginação do atlético marido.
Por outro lado, o antigo namorado da adolescência não tardou a se apaixonar pelo lindo dote de uma mocinha que era um tesouro, filha de próspero industrial. Embora se tratasse de uma menina meio café-com-leite, sua herança lhe dava um quê de exótico. Alimentava por ela uma intensa, excêntrica paixão, enquanto que o bonachão rodava com seu Rolls-Royce, jogava em Monte Carlo e repousava em seu iate transatlântico. E numa atitude de misericórdia, suportava, geralmente, como um senhor onipotente, os carinhos milionários da esposa.
Muito tempo depois, porém, por um desses acasos que só o destino sabe explicar, os dois antigos namorados se encontravam nas areias de Copacabana, que é a praia onde todos vão. Já não eram os mesmos. Ele parecia carregar os milhões matrimoniais na respeitável barriga. Ela continuava encantadora, mas apenas na medida que possa encantar uma mulher de cinqüenta anos. Conversaram pouco, o silêncio disse mais. E voltaram a se encontrar, com mais freqüência e menos acaso. Já eram, no entanto, velhos demais para as inflamadas e inúteis discussões dos dezessete anos. Caminhavam calmamente pela areia molhada, mão na mão, por mais ridículo que possa parecer para a sua idade. Caminhavam sem rumo, sem tempo, sem horizonte. E quando se voltavam, sentiam a nostalgia da vida perdida em poucos minutos. "


Chico Buarque
Santa Cruz, número 3 - 05/63

Sempre gostei da descomplexada atitude dos escritores que escrevem sobre futebol. Quando leio algum texto, crónica futebolística de um deles, delicio-me com a personalidade que revelam e distanciamento para uma certa «elite» que defende, no mínimo, a extinção do futebol.
Gente alegre, gente triste, gente casmurra, cabisbaixa, taciturna, voraz, feia, gorda, gente maldisposta, gente bem-disposta, gente sem dente, gente com dente, gente contente, fria, ortodoxa, ateia, judia, gente que arrelia.
Toda a gente gosta de futebol. O futebol é mais intrínseco como conceito do que a literatura. Que espécie de gente é essa que o despreza e espezinha, sem sequer se ter dado ao sacrifício de nele reparar?
É por isso que eu gosto de escritores descomplexados. Que nada devem. Que podem admitir o amor total ao futebol, enquanto lêem Tolstoi. O futebol perpassa todas as áreas e extractos sociais. A literatura é que não! Digamos, assim à laia de literato, que o futebol é mais «transversal» que a literatura. E quem, no seu perfeito juízo, é capaz de negar que o Ronaldinho Gaúcho faz arte?
Que fique o Chico Buarque a descomplexar plateias:

" Sou veterano em Copas. Posso dizer que assisti no Pacaembu a um Brasil e Suíça pelo Mundial de 50, embora mal me lembre do jogo. Na verdade, só me lembro do uniforme dos suíços, a camisa vermelha com a cruz branca no peito, e quando eles entraram em campo pensei que fossem os salva-vidas.Talvez eu fizesse pouco da partida por causa do Pacaembu, que já estava enjoado de ver aos 6 anos de idade. E a vedete daquele Mundial não era Zizinho ou Ademir, mas o Maracanã recém-concluído, o maior estádio do mundo. Fora o Rio Amazonas, era a primeira coisa maior do mundo que faziam no Brasil, e a molecada enchia a boca para falar "Maracanã". De modo que a verdadeira Copa, para quem morava em São Paulo, chegava pelas ondas da Rádio Panamericana. Mais que o locutor, era o eco do Maracanã quem narrava o jogo. O estádio fazia "óóóóó", e era jogada de efeito. Fazia "úúúúú", bola raspando a trave. Fazia "hhhhhhhhhhhhhhh", Brasil de novo no ataque. Gol, e o Maracanã explodia, e a gente cantava as Touradas de Madri pulando na cama. No dia em que perdemos a taça para o Uruguai, claro que desliguei o rádio e taquei a culpa no Maracanã.Eu tinha razão. Batendo o recorde mundial de público, e portanto cheio de si, o Maracanã não via motivo para se preocupar com a seleção brasileira. A seleção, por sua vez, qualquer um sabe que estava nas mãos do Maracanã. E quando os jogadores mais precisaram do Maracanã, o Maracanã emudeceu. Quer dizer, a estádio de futebol não se pode dar confiança, lição que calou fundo em nossos atletas a partir de 50. Anos a fio, se eram recebidos com fanfarra e foguetório, fechavam a cara. Alinhavam-se para as fotos, cinco agachados e sete em pé, contando o massagista gordo, mas dava para notar que posavam de má vontade, olhando cada qual para um lado, e todos para lugar nenhum. Bola rolando, seguiam alheios à torcida, que se esgoelava, e quanto mais alheios seguiam, mais se esgoelava a torcida. A turba fazia "óóó", "úúú", "hhhhhhhh", e nossos heróis viravam as costas. Na hora do gol, aí sim, comemoravam. Mas comemoravam entre si, com efusão, com estardalhaço, com pirâmides humanas, com mãos nas bundas, que era mesmo para tripudiar sobre o adversário. E o grande adversário, evidentemente, era o estádio de futebol.Com o tempo veio uma espécie de anistia, prescreveu a culpa do Maracanã, e as novas gerações não guardavam ressentimentos. Quebrou-se o gelo, ou aquilo que em teatro se chama a quarta parede, separando atores de platéia. A parede de vidro, suspeito agora que foi o Pelé quem a espatifou a socos, no gesto que aos nossos olhos desentendidos parecia solto no ar. E a impulsão com que Pelé celebrava o gol chegava a superar aquela, já extraordinária, com que subira para cabecear. Era como se, na celebração do gol, o homem saltasse de dentro do atleta. Não só com a alegria, mas sobretudo com o orgulho que fez falta a Garrincha, Pelé impunha-se ao estádio, antes mesmo que o estádio o aclamasse. Ou coroava a si próprio, como Napoleão ao deixar o Pala de mãos abanando. O último centroavante introvertido que vi jogar chamava-se Oxímoro. Jogava no Bonsucesso e retirou-se com a chegada da televisão, para quem o artista importa mais que a sua arte. Hoje, num espetáculo que prescinde da bola, muitos artilheiros já excedem Pelé, pois até gol de pênalti festejam com saltos mortais. E correm para as arquibancadas, dançam para as arquibancadas, trepam no alambrado e querem abraçar o público, ou se imolar por ele. Consciente de seu papel, a platéia em peso também não tarda a se levantar, levando os braços ao céu numa formidável onda, ou ola. E durante aquele minuto em que as câmeras dão a volta completa do estádio, fica evidente que os povos são fraternos, que a humanidade é generosa e tudo mais. Ou nos enganamos redondamente, e é o jogo lá embaixo que está um tédio.A seleção brasileira conta nesta Copa com o estímulo de sua imensa torcida e o crédito dos expertos internacionais, apesar de tudo. Mesmo entre os donos da casa, deu numa pesquisa que ela tem 80% das simpatias, e não é sempre que se encontra um francês 80% simpático. Pela qualidade de seu elenco, é possível que o Brasil chegue à final no Stade de France recém-concluído, o mais elegante coliseu do mundo. Ostentando-se em tarde de gala para um bilhão de telespectadores, o estádio estará inchado. Mas nem assim há de inibir os nossos craques. Não que eles recordem a lição do Maraca, ou tenham mais arte que Zizinho e Ademir. Mas porque agora, sem dúvida, são todos mais artistas."


O Globo/Estado - 07/06/98 PARIS

É permitido sonhar! 

Acabada a primeira volta do Campeonato, é chegada a hora de um balanço mais ou menos neutral, mais ou menos certeiro, mais ou menos isento do que é, para onde caminha, que possibilidades tem, esta equipa do Benfica.

Olhando especificamente para o último jogo realizado, desde logo afirmar que o Benfica é uma equipa organizada, moralizada, com soluções viáveis, cheia de alma, apoiada por toda ou quase toda a massa adepta e – não menos importante – ambiciosa.
No que de bom há a retirar do jogo contra o Paços de Ferreira, que é o culminar de uma série vitoriosa, destaco alguns tópicos que me parecem importantes:

1-
Defesa Sólida

A marca de 6 jogos consecutivos sem sofrer golos revela a consistência e qualidade indiscutíveis neste sector do terreno. Com uma dupla de centrais ao nível das melhores equipas europeias (tendo em Ricardo Rocha um substituto que, embora mais fraco, não destoa significativamente) e essencialmente 3 grandes laterais (Nelson, Alcides e Léo, sendo Nelson o polivalente) capazes de fechar bem as alas e simultaneamente oferecer à equipa qualidade de passe e fulgor ofensivo, a defesa do Benfica dá a segurança que propicia, noutros espaços do terreno, o virtuosismo, a velocidade, o risco e a coragem de apostar unilateralmente no golo.

2- Um modelo táctico bem definido

Depois de goradas as tentativas de Koeman de implementar um modelo de jogo incompatível com os jogadores que tinha e com a própria mentalidade do futebol português (3-4-3), o técnico do Benfica decidiu-se por rever as cassetes do êxito anterior de Trapattoni, copiando-o ainda que com alguma liberdade. Ao claro 4-2-3-1 da «velha raposa», respondeu com um mais definido 4-4-2, sendo que, em última instância, e consoante os momentos do jogo, pode muito bem transformar-se no 4-2-3-1 inicial pensado e utilizado pelo italiano. Deve dar-se mérito ao holandês por rapidamente ter compreendido o que estava em causa: a mentalidade e sedimentação de hábitos de vários jogadores contra a ideia (interessante, ainda que parca de recursos) de um treinador. Aliás, a inteligência de Koeman ultrapassa a simples mudança de ideia original do modelo táctico; ela observa-se na forma como vem integrando jogadores em posições diferentes da sua matriz inicial, criando assim um carrossel de opções, em que há jogadores que podem fazer dois e três lugares, sem que a produção da equipa se ressinta. Casos como Alcides, Nelson, Ricardo Rocha, Geovanni e Nuno Gomes são bons exemplos de apostas ganhas pelo treinador holandês, no que a adaptar a outras posições concerne.
O modelo está definido e revela condições para assim prosseguir. A casa é sólida e bem construída. Apoia-se numa defesa e guarda-redes de qualidade, quase inquebráveis, projecta-se num meio campo forte, combativo e de beleza pendular (Petit), rasga planos ao longo das linhas com extremos rápidos, fantasistas e desconcertantes, e tem na execução artística de Nuno Gomes o traço final que origina o acabamento, o golo.

3-
Espírito de equipa

Se pode haver dúvidas quanto ao plantel mais forte da Liga, no que respeita ao espírito, poucas dúvidas haverá. O plantel encarnado, composto por um núcleo duro com alguns anos de clube (finalmente!!!), incute em quem chega o mesmo princípio, ou princípios: solidariedade, trabalho, espírito de grupo, ambição, vitória. Camacho começou-os, Trapattoni fê-los crescer e provou-os com o sabor máximo do título nacional e Koeman agradece a construção e aproveita-a da melhor forma: continuidade. Pelo meio, e como catapulta espiritual, o malogrado ex-jogador do Benfica, Miklos Feher, funciona como a personificação de todos esses princípios. No futebol há sempre uma variante mística e outra surreal e irónica. Feher consegue agregá-las. Tornou-se uma figura eterna no Benfica, sendo sempre relembrado pelos jogadores, no famoso grito antes e depois do jogo; surreal e irónica por essa preponderância junto do coração dos jogadores e adeptos advir não dos feitos como jogador, mas de facto de ter morrido tragicamente em campo, minutos antes de uma partida ser concluída. Não tenho dúvidas de que Feher é peça importante naquilo que o Benfica vive hoje como vencedor desportivo e clube cada vez mais em ascensão. No futebol como na vida, há coisas simplesmente acima da nossa compreensão.


O Benfica está forte. Como clube recupera claramente a auto-estima e respeito europeu. Prova a sua força inigualável quando, por exemplo, enche o Stade de France contra o Lille, conseguindo a maior enchente em jogos da Champions League de equipas francesas jogando em casa (80% do estádio benfiquistas), renova os feitos europeus classificando-se para os oitavos de final da prova milionária, mostra-se cuidadoso nas contratações, irreverente nas opções, ambicioso nas pretensões e arrogante q.b. naquilo que verdadeiramente marca a diferença: o poderio e expressão incomparáveis em qualquer outro clube português no Mundo.



Terça-feira, Dezembro 13, 2005

Dubai, a 4 kilómetros das praias de Jumeirah,
entre Burj Al Arab e Port Rashid.

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

Iberia 

Era uma vez um grupo empresarial espanhol. Esse grupo detinha grande parte dos meios de comunicação em Espanha (El Mundo e Cadena Ser incluídos, sendo, respectivamente, o jornal mais lido e a rádio mais ouvida). Esse grupo acordou um dia de bom humor, decidiu virar-se para a esquerda e disse: Olha, está ali um país, e um grupo de comunicação (MediaCapital). Vamos comprar-lhes metade das acções, revolucionamos-lhes os programas de televisão, aproveitamos e fazemos alguma política (somos amiguinhos do PSOE), e, entre novelas, vamos oferecendo touradas, flamenco e o que nos apetecer.
Do lado de cá, do país à esquerda, gerou-se a balbúrdia: impensável. Os do país pequenino lembravam-se ainda das traições a que foram sujeitos não havia 500 anos, e, com medo de ter em risco a mui proclamada INDEPENDÊNCIA, escreveram todos muito em jornais, e falaram em rádios, vieram comentadores de todo o país, indignadíssimos, vociferando contra os ventos e casamentos que vinham da direita que – já se sabia – nunca bons.
Os castelhanos, surdos e pouco impressionáveis, lá compraram o grupo empresarial português, sem que os intelectuais do luso burgo pudessem fazer alguma coisa.
Às questões levantadas por jornalistas, limitavam-se a dizer: Também nós temos italianos à ilharga, e nem por isso somos menos castelhanos. A tele5 é de Berlusconi; o jornal ABC é maioritariamente do grupo do jornal Corriere della Sera, e não deixámos de comer tortilla.
Vendo respondidas estas questões, os lusos iniciaram o que se poderá chamar de iniciação ao modelo espanhol de comunicação. Compreenderam que a sua identidade não estava em causa. Receberam os hermanos com abraços, pancadinhas nas costas, e muito Porto a regar as bocas empresárias em mesas de discussão. Acharam até – imagine-se – que o jornalismo espanhol teria muito a ensinar ao português e emendaram a mão, chamando aos filhos Pepe, Paço, Florentín, Diego, Conchita, Dolores, Martín, e por aí adiante. Nas casas portuguesas, os filhos gritavam da sala para a cozinha coisas como: «Mama, quiero una ensaladilla rusa!» , «Dame un pincho de pulpo» ou «Si no me traes un bocadillo de queso y jamón, passo a llamarme outra vez Adérito».

Adérito vivia por detrás dos montes. Levantava-se ainda de noite para levar os animais a pastar. Passava os dias em pensamentos ululantes, enquanto acompanhava com o olhar uma ovelha que se desviava do rebanho, imediatamente reencaminhada pelo cão Piloto, amigo inseparável dos dias infinitos entre as montanhas a perder de vista. Adérito nunca vira televisão. Um dia, chegaram os jornalistas. Que vinham fazer reportagem, diziam. Aos pais perguntaram se podiam levar o «pobre rapaz» à cidade. «Mostrar-lhe a civilização, a modernidade». Adérito viu prédios grandes, e muita gente correndo com pastas na mão. Viu carros entre carros estamparem-se, uns nos outros, enchendo de fumo o seu «pobre nariz». Quando chegou a casa, a mãe perguntou-lhe: «Então, filho, gostaste?», respondendo Adérito, fria e petulantemente: «Hablame en castellano, mujer. Así no te comprendo!»

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