Acabada a primeira volta do Campeonato, é chegada a hora de um balanço mais ou menos neutral, mais ou menos certeiro, mais ou menos isento do que é, para onde caminha, que possibilidades tem, esta equipa do Benfica.
Olhando especificamente para o último jogo realizado, desde logo afirmar que o Benfica é uma equipa organizada, moralizada, com soluções viáveis, cheia de alma, apoiada por toda ou quase toda a massa adepta e – não menos importante – ambiciosa. No que de bom há a retirar do jogo contra o Paços de Ferreira, que é o culminar de uma série vitoriosa, destaco alguns tópicos que me parecem importantes:
1- Defesa Sólida
A marca de 6 jogos consecutivos sem sofrer golos revela a consistência e qualidade indiscutíveis neste sector do terreno. Com uma dupla de centrais ao nível das melhores equipas europeias (tendo em Ricardo Rocha um substituto que, embora mais fraco, não destoa significativamente) e essencialmente 3 grandes laterais (Nelson, Alcides e Léo, sendo Nelson o polivalente) capazes de fechar bem as alas e simultaneamente oferecer à equipa qualidade de passe e fulgor ofensivo, a defesa do Benfica dá a segurança que propicia, noutros espaços do terreno, o virtuosismo, a velocidade, o risco e a coragem de apostar unilateralmente no golo.
2- Um modelo táctico bem definido
Depois de goradas as tentativas de Koeman de implementar um modelo de jogo incompatível com os jogadores que tinha e com a própria mentalidade do futebol português (3-4-3), o técnico do Benfica decidiu-se por rever as cassetes do êxito anterior de Trapattoni, copiando-o ainda que com alguma liberdade. Ao claro 4-2-3-1 da «velha raposa», respondeu com um mais definido 4-4-2, sendo que, em última instância, e consoante os momentos do jogo, pode muito bem transformar-se no 4-2-3-1 inicial pensado e utilizado pelo italiano. Deve dar-se mérito ao holandês por rapidamente ter compreendido o que estava em causa: a mentalidade e sedimentação de hábitos de vários jogadores contra a ideia (interessante, ainda que parca de recursos) de um treinador. Aliás, a inteligência de Koeman ultrapassa a simples mudança de ideia original do modelo táctico; ela observa-se na forma como vem integrando jogadores em posições diferentes da sua matriz inicial, criando assim um carrossel de opções, em que há jogadores que podem fazer dois e três lugares, sem que a produção da equipa se ressinta. Casos como Alcides, Nelson, Ricardo Rocha, Geovanni e Nuno Gomes são bons exemplos de apostas ganhas pelo treinador holandês, no que a adaptar a outras posições concerne. O modelo está definido e revela condições para assim prosseguir. A casa é sólida e bem construída. Apoia-se numa defesa e guarda-redes de qualidade, quase inquebráveis, projecta-se num meio campo forte, combativo e de beleza pendular (Petit), rasga planos ao longo das linhas com extremos rápidos, fantasistas e desconcertantes, e tem na execução artística de Nuno Gomes o traço final que origina o acabamento, o golo.
3- Espírito de equipa
Se pode haver dúvidas quanto ao plantel mais forte da Liga, no que respeita ao espírito, poucas dúvidas haverá. O plantel encarnado, composto por um núcleo duro com alguns anos de clube (finalmente!!!), incute em quem chega o mesmo princípio, ou princípios: solidariedade, trabalho, espírito de grupo, ambição, vitória. Camacho começou-os, Trapattoni fê-los crescer e provou-os com o sabor máximo do título nacional e Koeman agradece a construção e aproveita-a da melhor forma: continuidade. Pelo meio, e como catapulta espiritual, o malogrado ex-jogador do Benfica, Miklos Feher, funciona como a personificação de todos esses princípios. No futebol há sempre uma variante mística e outra surreal e irónica. Feher consegue agregá-las. Tornou-se uma figura eterna no Benfica, sendo sempre relembrado pelos jogadores, no famoso grito antes e depois do jogo; surreal e irónica por essa preponderância junto do coração dos jogadores e adeptos advir não dos feitos como jogador, mas de facto de ter morrido tragicamente em campo, minutos antes de uma partida ser concluída. Não tenho dúvidas de que Feher é peça importante naquilo que o Benfica vive hoje como vencedor desportivo e clube cada vez mais em ascensão. No futebol como na vida, há coisas simplesmente acima da nossa compreensão.
O Benfica está forte. Como clube recupera claramente a auto-estima e respeito europeu. Prova a sua força inigualável quando, por exemplo, enche o Stade de France contra o Lille, conseguindo a maior enchente em jogos da Champions League de equipas francesas jogando em casa (80% do estádio benfiquistas), renova os feitos europeus classificando-se para os oitavos de final da prova milionária, mostra-se cuidadoso nas contratações, irreverente nas opções, ambicioso nas pretensões e arrogante q.b. naquilo que verdadeiramente marca a diferença: o poderio e expressão incomparáveis em qualquer outro clube português no Mundo. |