Terça-feira, Janeiro 10, 2006
Sempre gostei da descomplexada atitude dos escritores que escrevem sobre futebol. Quando leio algum texto, crónica futebolística de um deles, delicio-me com a personalidade que revelam e distanciamento para uma certa «elite» que defende, no mínimo, a extinção do futebol. " Sou veterano em Copas. Posso dizer que assisti no Pacaembu a um Brasil e Suíça pelo Mundial de 50, embora mal me lembre do jogo. Na verdade, só me lembro do uniforme dos suíços, a camisa vermelha com a cruz branca no peito, e quando eles entraram em campo pensei que fossem os salva-vidas.Talvez eu fizesse pouco da partida por causa do Pacaembu, que já estava enjoado de ver aos 6 anos de idade. E a vedete daquele Mundial não era Zizinho ou Ademir, mas o Maracanã recém-concluído, o maior estádio do mundo. Fora o Rio Amazonas, era a primeira coisa maior do mundo que faziam no Brasil, e a molecada enchia a boca para falar "Maracanã". De modo que a verdadeira Copa, para quem morava em São Paulo, chegava pelas ondas da Rádio Panamericana. Mais que o locutor, era o eco do Maracanã quem narrava o jogo. O estádio fazia "óóóóó", e era jogada de efeito. Fazia "úúúúú", bola raspando a trave. Fazia "hhhhhhhhhhhhhhh", Brasil de novo no ataque. Gol, e o Maracanã explodia, e a gente cantava as Touradas de Madri pulando na cama. No dia em que perdemos a taça para o Uruguai, claro que desliguei o rádio e taquei a culpa no Maracanã.Eu tinha razão. Batendo o recorde mundial de público, e portanto cheio de si, o Maracanã não via motivo para se preocupar com a seleção brasileira. A seleção, por sua vez, qualquer um sabe que estava nas mãos do Maracanã. E quando os jogadores mais precisaram do Maracanã, o Maracanã emudeceu. Quer dizer, a estádio de futebol não se pode dar confiança, lição que calou fundo em nossos atletas a partir de 50. Anos a fio, se eram recebidos com fanfarra e foguetório, fechavam a cara. Alinhavam-se para as fotos, cinco agachados e sete em pé, contando o massagista gordo, mas dava para notar que posavam de má vontade, olhando cada qual para um lado, e todos para lugar nenhum. Bola rolando, seguiam alheios à torcida, que se esgoelava, e quanto mais alheios seguiam, mais se esgoelava a torcida. A turba fazia "óóó", "úúú", "hhhhhhhh", e nossos heróis viravam as costas. Na hora do gol, aí sim, comemoravam. Mas comemoravam entre si, com efusão, com estardalhaço, com pirâmides humanas, com mãos nas bundas, que era mesmo para tripudiar sobre o adversário. E o grande adversário, evidentemente, era o estádio de futebol.Com o tempo veio uma espécie de anistia, prescreveu a culpa do Maracanã, e as novas gerações não guardavam ressentimentos. Quebrou-se o gelo, ou aquilo que em teatro se chama a quarta parede, separando atores de platéia. A parede de vidro, suspeito agora que foi o Pelé quem a espatifou a socos, no gesto que aos nossos olhos desentendidos parecia solto no ar. E a impulsão com que Pelé celebrava o gol chegava a superar aquela, já extraordinária, com que subira para cabecear. Era como se, na celebração do gol, o homem saltasse de dentro do atleta. Não só com a alegria, mas sobretudo com o orgulho que fez falta a Garrincha, Pelé impunha-se ao estádio, antes mesmo que o estádio o aclamasse. Ou coroava a si próprio, como Napoleão ao deixar o Pala de mãos abanando. O último centroavante introvertido que vi jogar chamava-se Oxímoro. Jogava no Bonsucesso e retirou-se com a chegada da televisão, para quem o artista importa mais que a sua arte. Hoje, num espetáculo que prescinde da bola, muitos artilheiros já excedem Pelé, pois até gol de pênalti festejam com saltos mortais. E correm para as arquibancadas, dançam para as arquibancadas, trepam no alambrado e querem abraçar o público, ou se imolar por ele. Consciente de seu papel, a platéia em peso também não tarda a se levantar, levando os braços ao céu numa formidável onda, ou ola. E durante aquele minuto em que as câmeras dão a volta completa do estádio, fica evidente que os povos são fraternos, que a humanidade é generosa e tudo mais. Ou nos enganamos redondamente, e é o jogo lá embaixo que está um tédio.A seleção brasileira conta nesta Copa com o estímulo de sua imensa torcida e o crédito dos expertos internacionais, apesar de tudo. Mesmo entre os donos da casa, deu numa pesquisa que ela tem 80% das simpatias, e não é sempre que se encontra um francês 80% simpático. Pela qualidade de seu elenco, é possível que o Brasil chegue à final no Stade de France recém-concluído, o mais elegante coliseu do mundo. Ostentando-se em tarde de gala para um bilhão de telespectadores, o estádio estará inchado. Mas nem assim há de inibir os nossos craques. Não que eles recordem a lição do Maraca, ou tenham mais arte que Zizinho e Ademir. Mas porque agora, sem dúvida, são todos mais artistas." |
O Globo/Estado - 07/06/98 PARIS