Gostamos todos muito de números redondos. Cinquenta, cem, duzentos, duzentos e cinquenta. Com a desculpa dos duzentos e cinquenta anos sobre o nascimento de Mozart, de repente, e sem aviso prévio, lá chegaram os concertos, as comemorações, as homenagens, até – imagine-se! – anúncios na televisão com a cara de Wolfgang em cartão, anunciando a «obra resumida» para o telespectador comprar, sem se chatear muito, que há óperas de 18 horas, e não há tempo para as ouvir. Com todo este escarcéu em redor de Mozart, decidi rever o filme que, de longe, mais emoções me trouxe e mais prazer me deu como peça de simplicidade, de inteligência e beleza – Amadeus, de Milos Forman. Ao longo da vida, o filme acompanhou-me. Comecei por vê-lo por partes, apenas por achar graça ao riso genial ecoando por aquelas salas enormes do palácio do Imperador José II, irmão de Maria Antonieta. Aquele riso, aquela cara, o despudor do talento, ali, para quem quisesse ver, a afronta ainda que subtil ao nosso «irmão» António Salieri. Chamo-lhe irmão, por ser ele a personificação dos medíocres («eu vos absolvo, medíocres do mundo»), dos medíocres que somos nós, em relação ao divino – Mozart e a sua música.
No princípio, foi a comédia do filme. Com 10, 11 anos queria porque queria ver e rever aquela entrada triunfal no palácio, aquele riso, o gozo incontido na cara de Salieri, a peça musical decorada enquanto percorria os corredores para depois a tocar sem hesitações, entrando mesmo em variações da própria peça, por enfado, por génio. Kapellmeister Bonno rindo, discreto, em subserviência e loucura.
Aos 13, 14 vi-o sinceramente. Absorvi-o. Todo. E fiquei maravilhado. Comecei por descobrir o enredo, percebi as primeiras ironias, os pequenos tempos entre falas, as fissuras por entre o argumento. Aquilo que não estava dito, mas adivinhado. Desde aí, vejo interminavelmente as personagens, descubro-as revisão após revisão, conheço-as, oiço-as, revejo-me nelas. Salieri como protagonista. Salieri sendo nós. A perspectiva com a qual Milos Forman decide confrontar-nos é notável. Desde logo, a dicotomia eterno/finito. Ao piano, Salieri procura, no padre atento, o reconhecimento do seu trabalho. Confrontado com duas, três músicas do compositor italiano, o pároco desculpa-se por não reconhecer nas melodias qualquer familiaridade com o que havia estudado, em Viena. Até que… … já desacreditando do seu ouvido, irrompe pelas mãos de Salieri uma melodia conhecida. Estamos na primeira presença de Mozart em todo o filme, ainda que indirectamente. O padre satisfeito por poder agradar ao compositor, segue a melodia, cantarolando. « Não sabia que tinha escrito essa música. É maravilhosa». « E não escrevi », diz Salieri, « that was … Mozart». Um pequeno diálogo, e a nossa condição de medíocres exposta ao mundo. De aqui em diante, estamos definidos. Seremos os olhos, a alma, o coração de Salieri, observando, impotentes, o voar de ave louca de Mozart. A nossa mediocridade chegou para nos resignar. Entramos no filme, e sem que notemos, a contemplação do divino enche-nos de satisfação contida. Podemos ver, mas não tocar. Podemos penetrar periodicamente na possibilidade do génio, mas não podemos ser o génio. O nosso destino está traçado. Sem génio, resta-nos, laicos de talento, cheirar Deus. O que nos é proposto, através de Salieri, é uma viagem sem fim ao longo da vida de Mozart. Uma visão diferente, pelos olhos do compositor que, na época, granjeava bem mais aplausos e sofria de maior reputação no meio musical que Mozart. Um homem tremendamente fustigado por não lhe ter sido dada a possibilidade do divino, entregue a uma luta sem tréguas contra Deus, e, simultaneamente, um homem absurdamente apaixonado pela música de Mozart. Desse dilema entre a admiração e a inveja, nasce a história. A dos medíocres. Que seriam bem mais que medíocres, se a suprema vontade divina não trouxesse ao nosso encontro esses outros, por vezes desprezíveis figuras, que, tocadas pela mão do eterno, enchem de «som e fúria» o coração dos mortais. |